China e Índia: Conflitos e tensões na fronteira

Os mortos de ambos os lados somam 63 até agora nas contagens oficiais. Segundo analistas, o conflito entre China e Índia está longe de se resolver

Os mortos de ambos os lados somam 63 até agora nas contagens oficiais. Segundo analistas, o conflito entre China e Índia está longe de se resolver

Desde maio, rumores sobre um atrito militar entre a China e Índia têm tomado conta dos bastidores da política mundial.

Os dois países vêm trocando acusações sobre avanços indevidos de tropas na fronteira. As tensões se elevaram há cerca de 40 dias, quando centenas de soldados dos dois países atiraram pedras uns contra os outros. Índia e China mobilizaram suas tropas imediatamente, mas informaram que buscariam uma saída pacífica.

Sites internacionais destacaram dois confrontos entre soldados indianos e chineses, em 5 e 9 de maio, em áreas de fronteira separadas no leste e norte da Índia. Embora ninguém tenha sido morto nessas batalhas corpo a corpo, mais de 100 soldados ficaram feridos.

“O ponto crucial do problema é que, desde o início de maio, o lado chinês acumulou um grande contingente de soldados e armas” ao longo desta fronteira, segundo o porta-voz indiano.

No final do mês passado o presidente dos EUA, Donald Trump, twittou sobre uma oferta para ajudar a resolver as crescentes tensões nas fronteiras entre a Índia e a China. Surpreendentemente, ele descreveu a situação como uma “disputa de fronteira violenta”.

Mais recentemente, em 15 de junho, ocorreu um confronto em Ladakh, no vale do rio Galwan, região do Himalaia. A região é na fronteira entre os dois países. A China confirma 43 vítimas, entre mortos e feridos. Os soldados indianos registraram 20 baixas.

Foi a primeira vez em 45 anos que um enfrentamento entre as Forças Armadas de Índia e China deixou vítimas fatais.

Os dois países vizinhos negaram a responsabilidade pelos confrontos de 15 de junho na região de Ladakh.

Zhao Lijian – GREG BAKER / AFP

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian disse o seguinte sobre o ocorrido: “Pedimos novamente à Índia que controle suas tropas na fronteira. Não atravessem a fronteira, não provoquem problemas”

Já o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, Anurag Srivastava acusou a China de impedir a ação das patrulhas indianas, violando acordos para evitar conflitos entre os dois exércitos, que travaram uma guerra de fronteira em 1962 e tiveram confrontos regulares desde então.

“O ponto crucial do problema é que, desde o início de maio, o lado chinês acumulou um grande contingente de soldados e armas” afirmou o porta-voz indiano.

Contexto

Com cerca de 4 mil km de extensão, a Linha de Controle Real (LAC) atravessa os territórios indianos Jammu e Caxemira, Ladakh, Uttarakhand, Himachal Pradesh, Siquim e Arunachal Pradesh.

Parte dessa área foi objeto de disputa durante a guerra sino-indiana em 1962, que deixou 1,3 mil mortos e terminou sem definição sobre o desenho da região.

O epicentro das tensões de junho está localizado entre a região norte de Ladakh e o deserto de Aksai Chin – área reivindicada pela Índia, mas controlada pela China.

As movimentações chinesas nas proximidades da LAC estão relacionadas às obras da Rodovia Nacional 219 – um dos gatilhos da guerra de 1962. Quando concluída, a estrada terá mais de 10 mil km e será a maior do país. A parte final do projeto extrapolaria a fronteira, segundo a interpretação indiana.  

De acordo com o jornalista e analista de defesa Ajai Shukla, com os avanços realizados desde maio, a China conquistou 60 km² de território indiano – incluindo o vale do rio Galwan, estratégico para a continuidade do projeto da rodovia. A informação não foi confirmada por nenhum dos governos.

A Índia, da mesma forma, vem ganhando terreno. O projeto mais ousado é a estrada Darbuk-Shyok-DBO, em Ladakh, que levou quase 20 anos para ser construída e corre paralelamente à fronteira com a China.

O país (Índia) liderado pelo primeiro-ministro Narendra Modi também mantém uma base militar a cerca de 20 km da cordilheira de Caracórum, reivindicada pelos chineses.

Se analistas indianos consideram que a China tirou vantagem das lacunas no patrulhamento da fronteira por conta da Covid-19 a partir de maio, do lado oposto a Índia é questionada por aproveitar a “distração chinesa” – em plena guerra comercial com os EUA – para expandir sua infraestrutura na região nos últimos meses.

Perspectivas de resolução do conflito

Lideranças do alto escalão dos exércitos chinês e indiano acumulam dezenas de horas de reuniões na fronteira, mas nenhum acordo foi divulgado até o momento.

A pesquisadora Yun Sun não acredita em uma resolução definitiva do impasse, mesmo que a radicalização dos conflitos não interesse a nenhum lado.

“China e Índia acabarão encontrando um compromisso mútuo para resolver temporariamente o impasse em Ladakh, já que nenhum deles deseja uma guerra. No entanto, a fronteira instável continuará a se desestabilizar, apodrecer e produzir novos confrontos”, afirmou, em texto publicado no portal War on The Rocks.

Em artigo no Newsclick, o diplomata aposentado M.K. Bhadrakumar lembra que, apesar dos avanços indianos no setor bélico, a capacidade militar chinesa é significativamente maior. O autor observa que, durante décadas, a China não reagiu à construção de infraestrutura pela Índia próximo à fronteira – o quadro só mudou em 2017, quando a aliança entre Modi e Donald Trump se fortaleceu.

Para evitar uma guerra, o ultranacionalista Modi precisará escolher entre “dar uma resposta à altura” das perdas humanas do último dia 15 ou preservar sua economia, abalada pelo coronavírus.

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